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Principais pontos do artigo:

Criadas para tratamento de diabetes tipo 2, as canetas se tornaram símbolo das promessas de perda de peso rápida e objeto de desejo impulsionado pelas redes sociais. Não à toa, estima-se que um em cada três lares brasileiros já teve contato com medicamentos para emagrecer à base de análogos dos hormônios GLP-1 e GIP

dados apontam mais de 1 bilhão de pessoas com obesidade no mundo, número que pode atingir 4 bilhões até 2035 [...]. No Brasil, onde mais de um quarto da população é obesa, três quartos poderão viver com excesso de peso nas próximas décadas

Foi a tempestade perfeita para que os medicamentos injetáveis passassem a ocupar um espaço inédito: ao mesmo tempo em que representam um avanço no tratamento da obesidade, também levantam discussões sobre banalização do tratamento com medicamentos, pressão estética, riscos à saúde e o símbolo de uma nova “era do emagrecimento” – cujos efeitos a longo prazo ainda não são conhecidos por completo.

Os análogos de GLP-1 e GIP atuam imitando hormônios intestinais que regulam o açúcar no sangue, consequentemente reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento do estômago. Com o tratamento, a sensação de barriga cheia, típica de uma refeição farta, permanece por mais tempo, e a vontade de comer desaparece consideravelmente.

Estudos recentes também apontam benefícios cardiovasculares, para doenças crônicas nos rins e no fígado. Em dezembro do ano passado, a Anvisa aprovou inclusive o uso do Wegovy para tratar gordura no fígado com inflamação. Meses depois, autorizou também a indicação para reduzir o risco de infarto e AVC em adultos obesos ou com sobrepeso e doença cardiovascular. Há estudos, inclusive, que apontam potencial de análogos do GLP-1 para proteção contra demência.

O problema é que o sucesso no tratamento de casos de obesidade aumentou também a procura por pessoas que querem apenas “perder um quilinhos”.

Médicos alertam que a banalização dessas medicações pode estimular transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além da chamada “agonorexia” – termo usado para descrever a supressão excessiva e disfuncional do apetite provocada por medicamentos. O quadro, mais comum entre pessoas sem obesidade e sem indicação clínica formal, pode aumentar o risco de sarcopenia, condição marcada pela redução da massa e da força muscular.

“A possibilidade de uma pessoa eutrófica [com peso considerado normal] desenvolver obesidade ou sobrepeso após interromper o medicamento é muito grande, porque ela está perdendo nosso maior bem, que é o músculo”

A perda muscular também pode afetar a saúde dos ossos. “Tenho relatos de amigos e pacientes que estão perdendo os dentes devido à perda óssea na região da boca. Porque usam o medicamento, fazem muita restrição e não têm suplementação adequada. Essas pessoas estão investindo no envelhecimento doente”, diz a médica.

Se os efeitos a longo prazo ainda estão começando a ser conhecidos, os efeitos colaterais imediatos podem variar muito caso a caso. Na bula das canetas, os sintomas mais comuns incluem náusea, vômito, diarreia e constipação intestinal, geralmente controlados com orientação médica.

Com o uso indiscriminado, porém, aumentou o número de registros de efeitos colaterais leves e até de eventos graves. A Anvisa identificou quase 3 mil notificações de eventos adversos entre 2018 e 2026 – quase metade apenas em 2025. Entre os casos relatados, há desfechos graves, incluindo mortes. Embora não haja comprovação direta de causalidade, a agência aponta a falta de acompanhamento profissional e a circulação de produtos irregulares como riscos à saúde pública.

Entre os casos que mais preocupam as autoridades está a pancreatite, inflamação do pâncreas considerada rara nas versões originais dos medicamentos.

Outra complicação que entrou no radar médico é a gastroparesia, conhecida como “paralisia estomacal”, condição em que o esvaziamento do estômago fica severamente comprometido.

Também há estudos ainda inconclusivos, feitos em roedores, sobre uma possível relação entre essas drogas e um tipo raro de câncer de tireoide, além de relatos de mau hálito associado a alterações salivares, tema que já levou o Conselho Federal de Odontologia a publicar orientações sobre o assunto.

Uma das frentes de investigação envolve ainda efeitos oculares, como visão borrada, dificuldade de foco e oscilações na qualidade visual.

Os riscos aumentam ainda mais com a expansão de produtos falsificados, vendidos fora dos padrões regulatórios. Um dos casos de maior repercussão ocorreu no ano passado, quando Luana dos Santos Anastácio, de 40 anos, morreu três dias após receber a aplicação de um “Mounjaro alternativo” em uma clínica de estética de Guarujá, no litoral paulista.

Além de problemas no transporte e armazenamento, muitos desses produtos são fabricados em condições inadequadas, sujeitas à contaminação por microrganismos e metais pesados.

Especialistas ponderam, todavia, que os medicamentos podem ser ferramentas de auxílio, mas isoladamente não eliminam as causas mais profundas da obesidade, como a genética e o estilo de vida contemporâneo. Quando o tratamento é interrompido, parte dos pacientes volta a ganhar peso: Oprah Winfrey, por exemplo, perdeu 23 kg com o tratamento iniciado em 2023, mas recuperou 9 kg depois de interromper o uso em 2025.

O chamado “efeito rebote”, porém, não é exclusivo das canetas. Após a cirurgia bariátrica, por exemplo, é esperado um reganho de cerca de 10% do peso perdido após 18 meses, como parte da adaptação do organismo. No caso das medicações, uma revisão de 37 estudos com mais de 9 mil participantes indica que a recuperação do peso pode ocorrer até quatro vezes mais rápido do que em dietas convencionais.

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this post was submitted on 04 Jul 2026
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Saúde e Bem-Estar

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